
Uma queixa comum em consultório é a diminuição do desejo sexual, em psicologia da sexualidade isto é considerado disfuncional sempre que provoque média ou grande ansiedade na pessoa ou que cause conflitos na relação afetiva. No entanto, aquilo que acontece em muitos casos é o fato de que esta diminuição do desejo constitui uma manifestação de outras dificuldades e não “o problema” em si, isto é, existe por traz do pouco ou nenhum desejo sexual alguma outra coisa que precisa ser investigada.
Um fator que costuma estar associado à falta de desejo é o uso de alguns medicamentos. Os psicotrópicos (antidepressivos, ansiolíticos, estabilizadores de humor) são um exemplo, mas não constituem a única categoria em que este efeito indesejado se manifesta – até um anti-hipertensivo pode estar na origem desta alteração. Uma comunicação deficiente entre o paciente e seu médico pode deixar espaço para uma má informação que vai gerar problemas nos relacionamentos pessoais afetivos, refletidos por uma experiência sexual de pouca ou de nenhuma qualidade. Nesta situação, a mudança na resposta ao estímulo sexual está ocorrendo pelo uso de uma medicação necessária a pessoa, mas que não deixa de originar problemas sérios em suas relações afetivas e sexuais. Pouco habituados a falar sobre a sua sexualidade com o médico, muitos casais acabam por fechar-se sobre si mesmos e sobre as suas dificuldades, tornando-se limitados na expressão de carinho.
Do ponto de vista físico, a ausência de desejo sexual pode ser consequência de uma disfunção erétil no homem ou de vaginismo (que é a contração involuntária dos músculos próximos à vagina que impedem a penetração) na mulher. Mas os fatores fisiológicos não se limitam a estas duas perturbações. Algumas alterações hormonais, por exemplo, também estão na origem deste tipo de problemas.
Do ponto de vista psicológico, o stress, o cansaço e as alterações no sono constituem os fatores importantes, e mais frequentemente relacionados à diminuição do desejo sexual. Serão situações que podem ocorrer na vida de qualquer casal em qualquer momento e, por isso mesmo, capazes de solução através do próprio casal, fazendo uma reorganização de suas rotinas para reduzir os fatores causadores e aumentar as situações de aproximação sexual. Mas se a falta de desejo se prolongar, é possível que haja outras dificuldades:
- A mais frequente é o tédio, ou seja, o fato de o ato sexual (e, em muitos casos, o próprio relacionamento) tornar-se um incômodo.
- A situação de uma das partes do casal ser extremamente exigente do ponto de vista sexual pode resultar na diminuição do desejo.
- A ocorrência de uma das pessoas deixar de se sentir atraída pelo seu cônjuge, somando-se a dificuldade de diálogo para buscar mudar esta situação.
- Em outros casos, um dos membros do casal pode ser demasiadamente autoritário e provocar no outro o sentimento de ser “dominado” isso faz com que a falta de desejo sexual constitua uma forma de exercer poder ou marcar uma posição no relacionamento.
- O desejo sexual diminuído também pode tratar-se de um sintoma da depressão.
As dificuldades na comunicação do casal podem ser de tal ordem que uma das partes acaba por usar o fato de estar doente, com dores ou cansado para evitar o ato sexual.
Refletindo sobre estes pontos, concluímos que é de grande importância a procura por uma ajuda adequada. Por mais constrangedor que pareça ser expor a intimidade sexual a um terapeuta especializado, isso pode significar o primeiro passo na resolução de um problema que o casal não é capaz de cuidar sozinho. Nos casos em que a base do problema é psicológica/ relacional, a terapia de casal com enfoque na sexualidade pode ser eficaz. Neste caso, é muito importante que o cônjuge da pessoa que não sente desejo sexual dê o seu apoio e seja compreensivo, para não tornar o problema ainda mais profundo e de solução mais complexa.